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FREI CANECA |
Frei Caneca - Óleo de T. Mario O cano da arma bateu de leve nas costas do frade. Era um a Banhado em suor, a batina suja, uma grossa corrente de ferro no pescoço, Frei Caneca começou a andar. Não estava só. Unidos pelas correntes, mais três prisioneiros caminhavam em fila pelas ruas do Recife. Atrás do cortejo, uma banda militar tocava hinos alegres tentando atrair o povo, para que todos vissem o destino daqueles que se atreviam a desafiar a Coroa. |
Mas havia pouca gente na rua e quase ninguém parecia interessado no desfile macabro. As pessoas não se impressionavam com a música, nem com a demonstração da fôrça portuguêsa. A não ser um ou outro, os transeuntes cuidavam da sua própria vida. Era um espetáculo grotesco pelo contraste: soldados a desfilar diante de janelas fechadas, hinos imponentes a marcar uma cadência de desalento nos passos dos prisioneiros, o ruído das correntes arrastadas ecoando nas ruas vazias. Apesar do fracasso, unido aos homens cambaleantes pelo sofrimento do presente e incerteza do futuro, Frei Caneca não pôde deixar de sorrir ante a vitória moral: esta não fôra a primeira rebelião republicana em Pernambuco, nem seria a última. A cidade, dominada pelos sentimentos liberais, apoiava os movimentos rebeldes e admirava os combatentes. As ruas vazias eram uma prova do mudo respeito da população, um testemunho do carinho do povo. A banda pára de tocar. Chegaram ao pôrto do Recife. Os prisioneiros são embarcados no porão de um navio. As correntes são substituídas por grilhões nos pés e gargalheiras no pescoço, de tal forma que Caneca e seus companheiros são obrigados a ficar deitados no chão úmido. Lá fora, um oficial português grita, triunfante, que afinal todos os rebeldes, do Recife estão encarcerados. A Revolução Pernambucana de 1817 fôra esmagada. Tudo isso aconteceu há muito tempo, pois o menino Joaquim do Amor Divino Rabelo, que viria a ser o Frei Caneca, nascera em 1779. O dinheiro que seu pai ganhava como tanoeiro fôra suficiente para dar-lhe educação, na qual sobressaiu pela inteligência e fôrça de vontade. Em 1796, com apenas dezessete anos, ordenara-se frei na ordem dos Carmelitas e passara a lecionar retórica, poesia, geometria e filosofia. Tornara-se um dos intelectuais preeminentes de Pernambuco, aderindo aos ideais libertários da Revolução de 1789, na França. Da sua origem humilde extraíra a convicção de que todos os homens são iguais e de que todos os povos devem ser livres. Fôra isso que o levara a juntar-se aos liberais na luta pela independência e república no Brasil. O levante fracassara, mas, se pudesse, Frei Caneca tentaria outra vez. |
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